The Punisher T1
9Fantástico

“Isto é uma série baseada em factos reais, na qual são dados os testemunhos de soldados traumatizados pela guerra. Também fala um pouco sobre conspirações governamentais. Mas tem muita ação.” – Isto é o que uma pessoa vai pensar se lhe mostrarem a nova série da Marvel sem ela conhecer o personagem e sem ver o logo a vermelho no fim dos créditos de abertura.

O Frank Castle (Jon Bernthall) que encontramos nesta primeira temporada dedicada ao personagem é um fantasma, um homem cujo o mundo pensa estar morto, e a maior parte da série vive muito disso. Castle é uma pura força da natureza, é levado à carnificina dado o trauma não só do seu tempo da guerra mas também do massacre que foi o assassinato da sua família perante os seus próprios olhos, é um simples e direto mensageiro da morte que trabalha pelos seus próprios meios, com as próprias mãos, e apenas pelas suas próprias regras.

Como série, The Punisher é algo que nunca adivinhariam que se passava no mesmo universo que Daredevil ou Jessica Jones se não fosse pela aparição de Karen Page (Deborah Ann-Woll), que embora tenha um papel pequeno, é algo tematicamente importante, contemporâneo, e como o resto da série, material pesado. A série lida com temas como stress pós-traumático devido à guerra e as consequências do mesmo, operações ilegais em nome da segurança nacional dos Estados Unidos, e ainda a pose de armas e a legalidade da mesma. A fundação da narrativa é formada com um grupo de veteranos que inclui Castle e o seu melhor amigo Billy Russo (Ben Barnes) e muito desta mesma narrativa centra-se em como estes homens lidam com a memória das suas ações na guerra.

Volto a repetir, isto é material extremamente sério, pois é possível encontrar um testamento brilhante em como a narrativa não foge à realidade do isolamento e sofrimento interno com os quais os veteranos vivem no seu dia-a-dia.

Há um grupo de terapia gerido por um outro amigo de Castle, Curtis Hoyle (Jason R. Moore), e neste grupo conhecemos Lewis Walcott (Daniel Weber) um jovem soldado que vemos a cavar um buraco no seu quintal esperando que isso ajude a curar a sua ansiedade e insónias. Um outro e muito mais cínico veterano fala sobre o quão despreocupado o governo é e como é necessário um motim a favor da posse de armas. Enquanto isto, Billy Russo trata de criar uma empresa de segurança privada com estes mesmos soldados internamente fraturados. Podem ainda a acrescentar à narrativa a discussão sobre o valor dado, ou não dado neste caso, a estes mesmos veteranos.

O maior elogio que se pode dar a The Punisher é a seriedade com a qual discute e aborda estes temas, e o comentário sociopolítico e cultural que faz sobre os mesmos, dado o clima dos dias de hoje. Tudo isto torna a série um dos programas mais audazes e cativantes produzidos pela Marvel e pela Netflix.

A série nunca esquece o quão pessoal pode ser para alguns dos espetadores, e com isto é entregue uma enorme parte do tempo à relação que se desenvolve entre Castle e Micro (Ebon Bachrach) e este último é sem dúvida o coração que bate no peito da série. O papel de Micro na série é absolutamente de levar às lágrimas quando colocamos em perspetiva as diferenças e as semelhanças entre ele e Castle. Estes elementos aumentam a fricção nas cenas mais paradas da série, pois ambos os personagens são homens que para o mundo estão mortos, e fazem de uma cave secreta a sua base de operações, na qual Micro se encontra escondido há um ano, privando-se a si mesmo da sua família, a qual vigia por medo que o governo lhes faça o que lhe fez a ele, algo que não será discutido aqui devido a spoilers.

Não só são ambos os atores excelentes nos seus respectivos papéis, exibindo uma ótima química no ecrã quando a mesma é necessária, mas as cenas em que os dois discutem mais agressivamente são os momentos mais leves da série com o qual poderemos rir um pouco, algo muito necessário dado o peso temático que encontramos durante toda a série.

Enquanto isto, uma história secundária foca-se na nova chefe do Departamento de Segurança Nacional, Dinah Madani (Amber Rose Revah) e enquanto que inicialmente é apenas usada para revelar o que ainda não sabemos sobre Castle, pouco a pouco, acabamos por ver que Dinah é em si uma pária da sociedade: uma formidável figura feminina numa posição maioritariamente ocupada por homens. Mas é quando Billy Russo se envolve com Dinah que a sua parte na história se torna realmente interessante, trazendo à mente uma relação à la “Jessica Jones/Killgrave” dada a natureza manipuladora de Russo e o prazer que o mesmo tira de controlar situações e como brinca psicologicamente com as suas vítimas, embora as mesmas não saibam que o são.

As únicas falhas aqui no meio são literalmente duas. Uma delas sendo um dos vilões secundários, e sei que esta queixa é familiar, mas durante toda a série parece uma adição desnecessária a qual nada acrescenta à série. Também há um certo evento, o qual não será discutido aqui, que precisa de abordar a falta de intervenção de algum dos outros heróis de Nova Iorque. Dada a altura em que a série se passa, sabemos porque é que Daredevil não pode aparecer, e no fundo ninguém precisa, mas é necessário abordar o porquê de ninguém intervir para proteger a cidade que dizem adorar tanto.

Por volta do sexto episódio, já conhecemos todos muito bem, tanto heróis como vilões. Conseguimos ver a vulnerabilidade de Castle quando está com alguém em quem confia, e essa lista é muito pequena, mas é isso que nos permite ver nele um ser humano e é também de onde a maior fonte de tensão na série surge.

No fim de contas, The Punisher é entretenimento que provoca questões de nível político, as quais não esperaríamos numa série desta natureza. Dispõem-se à complexidade dos tópicos reais que discute e pelos quais se define, como o incalculável dano e as incontáveis mortes provocadas hoje em dia no nome da “paz”. Quando despimos a pele de série baseada em comic-books, a série é uma pesada discussão que surge no tempo certo, e foi certamente a escolha acertada pela parte da Marvel adiar o seu lançamento, dados os infelizes eventos de há um mês em Las Vegas. Fiel ao personagem original, ao seu mundo e às regras que impõe a si mesma, este é a série que os fãs estão à espera e que os trailers prometem. Sem fugir à violência e até surpreendendo no que toca aos níveis aos quais a mesma chega. The Punisher vai chocar, incomodar e surpreender a sua vasta audiência e salientar o quão importante é a sua presença no universo Marvel, mas ainda mais, no nosso universo.

A primeira temporada de The Punisher ficará disponível na Netflix no dia 17 de novembro.